Januária Vargas

Minas Gerais nos encanta e nos inspira não apenas nas suas belezas naturais, nas cidades históricas, na culinária típica e na simplicidade de um povo acolhedor. O jeitinho mineiro é singular também quando se fala em moda; sendo o estado reconhecido em todo o país e até internacionalmente, por meio de marcas renomadas que valorizam a cultura local, unindo simplicidade e o requinte em vestuários únicos. A moda feita em Minas Gerais tem o artesanato como carro-chefe, no que a diferencia das produções realizadas em outras regiões do país. “Minas é conhecida por uma moda sofisticada, feita à mão, rica em detalhes e de bons acabamentos”, relata o estilista mineiro Ronaldo Fraga, um dos nomes mais respeitados no cenário fashion brasileiro.

A jornalista de moda, Heloisa Aline, garante que a indumentária mineira sempre foi reconhecida lá fora por sua qualidade: “Posso dizer também que ficamos conhecidos por usarmos técnicas tradicionais no estado relacionadas ao ‘feito à mão’, como o tricô, o bordado, o crochê e determinados tipos de pontos.” Heloisa Aline, que atua há mais de 30 anos no Caderno Feminino do jornal Estado de Minas e comanda a agência Salamandra Comunicação & Marketing, ainda ressalta que a forma em que mineiros recebem seus clientes e turistas é o que mais encanta neste meio: “Somos carinhosos, hospitaleiros, prestativos no tratar e isto envolve os lojistas, de maneira geral”.

jornalista de moda, Heloisa Aline.

O artesanato utilizado nas confecções dos looks reflete a identidade da cultura mineira e resgata o regionalismo presente nos costumes do estado. O tradicionalismo vigente nas cores, texturas, estampas e confecções das peças reflete a imagem de Minas Gerais mundo afora. Além de representar um mix entre o luxo das passarelas e o trabalho manual dos nossos artesãos.

Estampas que retratam a cultura

A estamparia é apontada como um símbolo, uma identidade de uma marca.  Nos anos 80, considerado o primórdio da moda em Minas Gerais, as estampas mais predominantes eram as artesanais, quadro a quadro, com muita serigrafia e baticks (processo de tingimento de tecido). Nos dias atuais, os computadores aperfeiçoaram o ofício da estamparia. “Minas possui o trabalho que já é conhecido de estampa de superfície em têxtil style. Temos grandes estamparias aqui e também os designers têxteis. E muito da identidade da marca vem daí”, afirma Ronaldo Fraga. 

Não apenas em Minas Gerais, mas “a estamparia é vital no processo de criação de qualquer marca, em qualquer lugar do mundo. É uma espécie de marca registrada, aquilo que dará exclusividade a uma coleção”, garante a jornalista. Heloisa Aline ainda afirma que “os prints se relacionam com o tema de trabalho de cada label e se desdobram para contar uma história” por meio do vestuário. 

Cada vez mais, os estilistas se inspiram na cultura de Minas e do Brasil para criar suas coleções. Estas manifestações podem ser vistas claramente nos desfiles de moda, que alcançam um público significativo, com repercussão intensa. “Sempre cito o exemplo de Ronaldo Fraga, que é o nosso fashion designer mais conhecido. Ele sempre tem levado temas mineiros para a passarela, como, por exemplo, as bonecas do Vale do Jequitinhonha, o Rio São Francisco e a história de Zuzu Angel”, explica a jornalista. 

Para Ronaldo Fraga a moda é influenciada pela cultura e sempre defendeu o cenário fashion dentro do segmento sociocultural. “A moda acaba sendo um reflexo da cultura de um país. Minas Gerais, por exemplo, provoca desejo no Brasil. Quando fala que é de Minas, as pessoas abrem um sorriso imenso; pois é sinônimo de comida boa, de boa receptividade, de cidades lindas, de clima bom.” Apesar do estado mineiro ter representatividade lá fora, Ronaldo lamenta que “a moda já teve seus dias melhores, hoje nem tanto. Mas o Estado deveria trabalhar a moda de Minas Gerais enquanto cultura”. 

Em consenso com o estilista, a jornalista garante que a moda pode possuir viés político, engajado, social e transformador. “A moda está sempre contando histórias de países, cidades, regiões, hábitos, costumes, comportamentos. E isto sempre repercute na cultura de qualquer local.”

Ronaldo Fraga

Oscilação no mercado da Moda

Segundo a Federação das Indústrias de Minas Gerais – FIEMG, no primeiro semestre de 2019, a área da moda representa o segundo setor que mais gera empregos no estado, principalmente na contratação de mulheres. Ainda de acordo com a instituição, há em Minas Gerais 9.750 empresas da indústria da moda inclusas nos ramos de vestuário, têxtil, bolsas e calçados, joias e bijuterias. 

O número de empresas mineiras representa 13,5% do segmento em todo o país e empregam atualmente mais de 125 mil pessoas. “Minas Gerais tem um parque fabril importante, traz divisas para o Brasil com suas exportações. Embora, no momento, esta modalidade de comércio tenha caído devido à contingência econômica do país”, afirma Heloisa Aline. 

O estilista Ronaldo Fraga já chegou a possuir um galpão com 200 costureiras contratadas. “Hoje eu tenho 10 costureiras na equipe e terceirizo tudo. Eu falo isso com uma certa tristeza, mas é a realidade dos dias de hoje”, declara. Heloisa Aline lembra que nas décadas de 1980, 1990 e 2000 a produção de uma empresa do ramo era feita nas próprias fábricas em todos os seus processos, da criação à distribuição. “Com a crise, veio a prática da terceirização por meio de facções, hoje muito usada porque é mais econômica, embora envolva uma logística fabulosa e um controle de qualidade apurado de quem contrata esse tipo de serviço”, afirma. 

Mesmo com os altos e baixos no mercado, a moda mineira não perde a força. O bairro Prado, por exemplo, possui mais de 200 showrooms de moda. Há diversas marcas/empresas no Norte, Triângulo Mineiro e Sul de Minas. Além disso, o estado sedia o Minas Trend que se trata do maior salão de negócios da cadeia produtiva da América Latina, que possibilita a aproximação entre fabricantes e lojistas. O Minas Trend também promove o intercâmbio de conhecimento e a integração de profissionais, estimulando assim o crescimento e a organização do setor no estado. Confiante, Heloisa Aline afirma: “A moda mineira continua sendo uma referência! Minas Gerais nunca saiu de moda.”. 

Um pouco de História

Ao resgatarmos as antigas memórias do estado, é possível notar, ainda no século XIX, influências no modo de vestir vindos dos costumes da Europa. Ronaldo Fraga relata que partes das referências presentes na moda local vieram dos tempos em que a cidade de Ouro Preto era a capital de Minas Gerais. “Na época, todos os modistas da então capital mineira copiavam a corte do Rio de Janeiro. Aqui em Minas, todos também queriam ser europeus e isso atravessou o tempo”, afirma. 

Apesar do tradicionalismo das confecções ser um ponto forte no vestuário mineiro, a moda em Minas Gerais (e também no Brasil) é praticamente nova. “Historicamente, se formos comparar com a moda francesa ou italiana, somos muito jovens. Mas já caminhamos bastante”, relata Heloisa Aline. 

O advento da moda em Minas Gerais iniciou nos anos 80, quando dez grifes se uniram e formaram o Grupo Mineiro de Moda, um movimento emblemático que chamou a atenção do país inteiro a respeito das criações realizadas em Belo Horizonte. Graças a este coletivo de estilistas, Minas Gerais passou a ser inserido na esfera da moda nacional, com uma força criativa e de vanguarda. 

O cenário da moda passou por diversas transformações para se tornar o que é hoje. “No início dos anos 1980, não se contratava estilista, por exemplo. Quem criava as roupas eram as donas das confecções. Não havia o mercado das modelos, nem stylists, ou fotógrafos especializados”, recorda a jornalista. Atualmente, a valorização de cada profissional passou a ser uma das maiores conquistas na cena.  “A moda passou a ser vista como atividade séria e seus profissionais mais respeitados. Claro que o próprio desenvolvimento do segmento juntamente com a mídia proporcionou isto”, declara a jornalista de moda. 

Estar na moda é ser você mesmo

Vale ressaltar que nos dias de hoje, a moda não se influencia no que a maioria das pessoas distingue como “tendência”: as cores da estação, o hit da temporada ou os looks do momento. O cenário fashion na atualidade pode ser considerado libertador. Heloisa Aline salienta que a moda contemporânea “se tornou democrática, o que significa que não escraviza mais ninguém”, ou seja, cada indivíduo pode se vestir de acordo com seu estilo e gosto pessoal. Ronaldo Fraga ainda destaca que “estar na moda é, na verdade, estar atento com o tempo que a gente está vivendo. E esse tempo não quer dizer o tempo das tendências; e sim o tempo relacionado ao diálogo com todas as questões que estamos vivenciando”.

Marcas de sucesso

Sempre antenada no mundo da moda, a jornalista Heloisa Aline listou, para a Revista Cidades de Minas, algumas marcas de maior destaque do universo fashion em Minas Gerais: “Ronaldo Fraga é, pelo seu protagonismo, o mais conhecido nacionalmente. Mas temos marcas como a Skazi que possui um ótimo marketing, tem crescido bastante e aparecido no mercado. Temos marcas antigas como a Graça Ottoni, Alphorria e Bárbara Bela, que continuam sendo referências. Temos o bom tricô da Gig e da Coven. Temos a Patrícia Bonaldi e Pat Bo, de Uberlândia, cujo grupo adquiriu a Apartamento 03, muito especial. Temos Fabiana Millazo na roupa de festa. Temos a Led, bem vanguarda e jovem, que já está no line up da São Paulo Fashion Week. Temos a Printing também, que é mais antiga; mais muito cool. Ah! A Unity Seven, com apenas seis anos de mercado, e já está dando o que falar… O mercado mineiro é bem rico em opções!”.

Sonha em trabalhar com moda? 

 “Estude, pesquise, se atualize sempre. Escute pessoas competentes e experientes ou, seja, eleja mentores. E encare o setor, glamouroso sim, como um trabalho como outro qualquer, que exige demais dos seus profissionais pelas características de sazonalidade e efemeridade, que lhe são implícitas.” Heloisa Aline, jornalista de moda do Estado de Minas e diretora da Salamandra Comunicação & Marketing. 

 “O conselho para quem deseja seguir carreira na área da moda, é trabalhar muito como empregado para os outros, em confecções diferentes, para poder entender que nem tudo é só glamour. Tem boleto bancário e tem um monte de coisa envolvido nisso aí. E também tem o olhar descentralizado da moda. Focar na história da cultura geral.” Ronaldo Fraga, designer de moda e proprietário do Grande Hotel Ronaldo Fraga. 

Reconhecimento

Devido ao trabalho repleto de personalidade, que carrega um viés artístico e social nas suas criações, o fashion designer, Ronaldo Fraga, foi condecorado com cerca de 30 prêmios durante seus 20 anos de carreira. As honrarias de maior destaque para o estilista foram: o prêmio “Faz a Diferença” do Jornal O Globo e o “Trip Transformadores”. Grande parte do portfólio do artista enaltece as tradições da cultura mineira e os prêmios conquistados, reconhecem as ações que fazem a diferença no país, além da possibilidade em transformar o Brasil em um lugar melhor para se viver. 

Você sabia?

Por meio de iniciativa da Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, em parceria com a Fundação Municipal de Cultura – FMC. A capital mineira sedia, desde 2016, o Museu da Moda (MUMO), considerado o primeiro museu público voltado para o resgate da história da moda no Brasil. O museu representa um importante marco para o reconhecimento do cenário fashion mineiro, assim como bem cultural de Belo Horizonte. A moda de Minas é conhecida atualmente por meio do patrimônio nacional.

Segundo a prefeitura de Belo Horizonte, em pronunciamento na plataforma digital, “o MUMO tem como missão preservar, pesquisar e difundir acervos referentes à moda na capital mineira, em suas múltiplas facetas, dialogando com a contemporaneidade e estimulando o pensamento crítico. Seu objetivo é ser uma instituição de referência em memória, conservação e pesquisa de moda, indumentária e comportamento”.


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