“Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: “Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo” (Mt 2,1-2). O trecho da Bíblia narra sobre o  nascimento de Jesus Cristo, um marco no calendário cristão. E essa história rege uma tradição que sobrevive ao tempo em Minas Gerais.

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Foto: Arquivo IEPHA

Com música, religiosidade e alegria, a Folia de Reis é a cultura centenária, passada de geração em geração, que ainda merece muitos aplausos e admiração. A Festa costuma ter início logo após o Natal e segue até o dia 6 de janeiro, quando a Igreja celebra a Solenidade da Epifania (manifestação) do Senhor. A origem da Folia é associada a uma tradição cristã na Europa, trazida para o Brasil, provavelmente no século XIX, de acordo com o Instituto Estadual de Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – Iepha-MG.

A tradição reúne instrumentistas e cantores, que, usando roupas coloridas, máscaras e uma bandeira que identifica o grupo, percorrem as ruas das cidades. Esta caminhada simboliza o percurso feito pelos Magos até encontrarem o Menino Jesus. Ao pararem nas casas, eles costumam se apresentar em torno do presépio, cantando canções em louvor a Jesus e aos Santos Reis. Os grupos são recebidos com comes e bebes típicos dos festejos de fim de ano.

Resistência ao tempo

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Foto: Aquivo IEPHA

De acordo com o instituto, a Folia se mantém viva em 441 municípios no estado, onde ganhou o ritmo e sotaque mineiro. Assim, os festejos que relembram a natividade fazem parte da cultura, identidade e religiosidade do povo de Minas. Casas e praças públicas são os locais onde os grupos, que simbolizam os reis magos Melchior, Gaspar e Baltazar, tocam canções e relembram passagens da história religiosa.

“Ao longo dos anos as folias mantiveram suas práticas, conservando sua variedade de rituais, porém em constante processo de reinvenção e acréscimos de novos significados surgidos a partir das demandas sociais e dos contextos aos quais estão inseridas. Nessa dinâmica, os grupos experimentam a aceleração do tempo, resistindo ao enfraquecimento das tradições em um processo de contínua e permanente interação com as mudanças da sociedade”, explicou em nota a assessoria de comunicação do  Iepha-MG.

Resistência e luta para que os festejos não fossem esquecidos marcam a história de Osmar Aparecido de Carvalho, conhecido como “Maribondo”. Ele coordena o grupo de Folia na cidade de Caetanópolis, a 102 km de Belo Horizonte. Atualmente a festa é realizada junto com a prefeitura. Para Osmar, a Folia dos Santos Reis necessitava ser resgatada, sobretudo entre os mais jovens. Herdou do pai o conhecimento e paixão em fazer parte da Festa. Após a morte do genitor, assumiu o comando e com isso, a missão de dar continuidade à Folia que vem da época de seus antepassados.

“Há 30 anos, quando eu comecei na folia, crianças não podiam participar, somente adultos. Quando eu a assumi, estava quase acabando por causa disso, mas não deixei acontecer. Na coordenação, levei o trabalho em escolas de Caetanópolis, resgatando em jovens e crianças. Depois de cinco anos, crianças e jovens começaram a fazer parte dos grupos, que envolviam as cidades de Caetanópolis e Paraopeba, e assim a Folia cresceu bastante na região”, disse.

Folia de Reis Patrimônio Cultural e Imaterial

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Foto: Aquivo IEPHA

Em 2017, as folias passaram a ser reconhecidas como patrimônio cultural imaterial em Minas Gerais. Assim, obteve vantagens, como obter benefícios de políticas públicas para os festejos. De acordo com levantamento do Iepha, 1784 grupos de folias estão cadastrados atualmente. Mas diferente de muitos casos, o reconhecimento das Folias de Minas como patrimônio cultural do estado não esteve relacionado a algum risco iminente de perda ou desaparecimento, segundo o instituto.

O tombamento foi possível após uma longa pesquisa, que observou a força e a vitalidade da prática, onde milhares de foliões dedicam suas vidas aos seus santos de devoção. Assim, o órgão tem trabalhado na criação e execução de um Plano de Salvaguarda, com estratégias de proteção do bem cultural. Entre as ações desenvolvidas estão a realização de Fóruns Regionais de Salvaguarda, elaboração de publicações e a produção de um documentário que será lançado em janeiro de 2020. Além disso, mantém um cadastro atualizado desses grupos e articula diversas ações com os municípios mineiros, por meio do programa “ICMS Patrimônio Cultural”.

Jéssica Alves

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