Dança de corpo e alma

O Movimento Soul BH resiste e encanta no coração da capital mineira. 

Vivian Leite

Soul é um gênero musical  que surgiu nos Estados Unidos entre as décadas de 50/60 e tornou-se popular entre os negros. O ritmo nasceu do Blues e do Gospel e apareceu justamente na época em que diversos movimentos de liberalismo social nasciam, a luta contra o racismo era muito forte nessa época.  O som é marcado por instrumentos de sopro, vocais elaborados, improvisações, além da alegria contagiante e voz rasgada de exemplos como: Aretha Franklin, James Brown e Stevie Wonder.  

Nesse propósito, o Movimento Soul BH traz em sua essência a resistência e a alegria de um povo. Os encontros são um momento de exaltar a cultura negra, a ginga, a liberdade, colocar as roupas e sapatos exclusivos e os cabelos black power para balançar. Atualmente os encontros são marcados por meio de eventos criados pelo Facebook e também nos grupos de WhatsApp. O evento acontece de uma a duas vezes no mês normalmente na Praça Sete, Parque Municipal ou debaixo do Viaduto Santa Tereza. Estão ali para além de se divertir, resistir e ressignificar estereótipos que estão arraigados em nossa sociedade.

Estudante de Direito, carteiro, produtor cultural, dançarino e DJ. São várias as funções exercidas por Walter Pinheiro da Silva (57). Ele é o idealizador do Movimento Soul BH. Walter é natural de Governador Valadares, mas foi criado em Belo Horizonte no Aglomerado da Serra, uma das maiores favelas da América Latina. “Eu encontrei um espaço para realizar um trabalho social através da dança, levar as pessoas para dançar e se curarem dos seus males, de stress, de depressão. Assim é a maneira que eu encontrei de ajudar as pessoas, é a realidade minha hoje.”  Segundo ele, na década de 90 o soul começou a sumir, e outros estilos ganhavam espaço. No entanto, em 2004, houve um resgate do soul no Brasil e BH foi um polo do movimento. Para Walter foi muito gratificante esse resgate: “Foi muito bom porque as pessoas negras passaram a assumir sua identidade, seu cabelo black, porque antes o pessoal gostava muito de fazer uma chapinha. Hoje a pessoa já se identifica.” A intenção era trazer de volta as vestimentas característica, coloridas, calças boca de sino, investir no estilo. Por isso ele criou o Movimento Soul BH. 

Fotos: arquivo pessoal Walter 

A batida do som embala quem passa por ali, e é impossível ficar parado. Mesmo os mais tímidos se rendem ao ritmo e aos poucos todos se juntam e fazem até passinhos combinados. A regra ali é curtir o som e sacudir o esqueleto sem medo.  O movimento é muito inclusivo, crianças, idosos, brancos, negros, deficientes físicos, pessoas em situação de rua e de todas as classes sociais ali se reúnem para dançar e se divertir sem amarras. “Pra gente não tem distinção, a gente aceita qualquer pessoa independente da sua  classe social, religião, cultura ou da sua raça” completa Walter. O mais gratificante para ele, é o trabalho social que fazem, indo até escolas públicas, favelas, pessoas idosas ou com deficiência. O maior receio de Walter é que a cultura morra com ele, a ideia é passar para as próximas gerações esse movimento que é do povo. O movimento não tem fins lucrativos e sobrevive sem nenhum patrocínio, inclusive este é o sonho de Walter, conseguir patrocínio para que possa custear os eventos, já que ele tira do próprio bolso. Também almeja que um dia  possa levar para outros estados e quem sabe até outros países.

Fotos: arquivo pessoal Walter 

Fotos: arquivo pessoal Walter 

Fãs de carteirinha

Em outubro de 2017 surgiu uma grande fã do Movimento. Adriana Lamas, analista judiciária, conta que foi amor a primeira batida. Em uma ida a feira hippie de Belo Horizonte, escutou uma música dos anos 80 vindo do Parque Municipal, foi entrando e viu umas pessoas reunidas ao lado do Teatro Francisco Nunes. “Não tive dúvida, fui até o local, chegando lá deparei-me com pessoas dançando passinho na maior alegria. A atmosfera era de muita energia positiva, contagiando a todos de forma instantânea. Impossível estar perto da galera do Movimento Soul BH sem dançar, cantar, sorrir!”. No mesmo dia ela comprou 3 CD’s com Walter, pois ele anunciou que o evento era feito sem patrocínio “se tem ajuda, ótimo! E se nao tem o evento acontece igual” é o que o produtor dizia. Adriana, que atualmente mora em Foz do Iguaçu-PR, se tornou fã e já levou o movimento para lá, criando a Turma do Passinho. “ Você chega e simplesmente dança, com o grupo ou sozinha, do jeito que quiser. Quem não quer dançar se diverte muito também. Afinal, o pessoal que já sabe uns passinhos encanta a todos com as coreografias realizadas.”

Outra amante do movimento é Miriam Ruyka, que confessa que desde muito pequena sempre gostou de cultura, música, dança: “eu sou cabeleireira, mas o que me preenche, que me alegra é quando eu estou dançando, cantando”.  Miriam ainda enfatiza a importância do Movimento para o ser humano: “O movimento é um trabalho de inclusão social, quebra barreira de raças. A dança em si, o Soul, é mais do que uma expressão corporal, ela até mesmo cura as pessoas que estão com depressão por exemplo, porque dançar nos traz muito alegria.”

Conheçam a página no facebook: Movimento Soul BH Cultura de Rua que já tem  76.876 curtidas.

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